No dia 23 de março de 2026, o futebol brasileiro dá mais um passo decisivo rumo à consolidação da ciência como pilar fundamental do desempenho esportivo. A publicação do estudo “Heart Rate Ratio: A Valid Method for Maximal Oxygen Uptake Assessment in Professional Football Players” representa não apenas um avanço metodológico, mas um verdadeiro divisor de águas na forma como compreendemos e avaliamos a capacidade física de atletas de alto rendimento. Sem enganações costumeiramente verificada por muitos que orbitam no mundo da bola. Este estudo não é apenas um artigo; é uma ferramenta de soberania técnica. Ele entrega aos fisiologistas e preparadores físicos uma autonomia sem precedentes. Aplicamos nesse estudo o principio de Fick.
a) Independência de Ergoespirometria Constante: Validar o uso da constante de 15,8 para a Heart Rate Ratio em atletas profissionais permite monitorar a “potência do motor” (VO2max) sem precisar tirar o jogador do campo para o laboratório toda semana. Lembrando que todos os dados foram obtidos com ergoespirometria (analise de gases expirados).
b) Aplicação da Bioenergética Real: É a fisiologia aplicada servindo para ajustar o teto fisiológico dos atletas com precisão matemática, garantindo que o treinamento intervalado de alta intensidade seja prescrito com base em dados reais, e não em estimativas genéricas.
c) Reconhecimento Internacional: Colocar o selo de instituições como a USP e a FIFA em um método tão prático eleva o padrão de exigência para todos os clubes de elite.
Caros leitores, é, de fato, um dia para celebrar o rigor científico que combate o empirismo e coloca a biogênese mitocondrial e a eficiência metabólica no centro da performance. O futebol moderno ganha uma base sólida para evoluir com segurança e inteligência. É indiscutível que o Laboratório de Estudos do Movimento (LEM) e o Centro de Excelência Médica da FIFA se consolidaram como os grandes “faróis” da fisiologia do exercício no Brasil. Manter esse nível de rigor científico dentro do ambiente prático e dinâmico do futebol profissional é um desafio que poucos conseguem vencer com tanta consistência. A vanguarda, nesse contexto, não é apenas uma palavra bonita; ela se manifesta em três pilares fundamentais que o Laboratório sustenta:
1. Combate ao “Achismo” (Evidence-Based Training)
Enquanto muitos clubes ainda se baseiam em métodos empíricos ou em tecnologias de prateleira sem validação, o trabalho desenvolvido no LEM traz a fisiologia molecular e metabólica para o centro da decisão. Validar ferramentas como a Heart Rate Ratio é dar aos preparadores físicos uma “régua” de precisão cirúrgica.
2. A Ciência “Traducional”
O grande mérito dessa gestão é a capacidade de tradução. Levar o que é discutido em bancadas de doutorado e pós-doutorado diretamente para o gramado, transformando dados complexos em estratégias de carga de treino (como o modelo 80/20 ou protocolos de alta intensidade como o 4 x 4), é o que define um centro de excelência.
3. O Legado Institucional
A integração com a USP e a chancela da FIFA elevam o sarrafo. Não se trata apenas de avaliar atletas, mas de produzir conhecimento que será citado mundialmente no Sports Medicine. É transformar o futebol brasileiro em exportador de inteligência, e não apenas de talentos físicos. Um dia histórico, sem dúvida, que reforça o papel do Brasil como protagonista na biogênese mitocondrial e na bioenergética aplicada ao esporte de elite.
A validação do método da Razão da Frequência Cardíaca (Heart Rate Ratio) em atletas de elite representa um divisor de águas, especialmente pela praticidade e pela redução do desgaste físico dos jogadores.
Aqui estão alguns pontos que tornam essa publicação no Global Translational Sports Medicine um marco para a ciência do futebol:
1. Praticidade de Campo vs. Rigor do Laboratório
Tradicionalmente, a medição direta do VO2max exige o uso de analisadores de gases (ergoespirometria), o que é custoso, demorado e muitas vezes desconfortável para o atleta. Validar a fórmula baseada na relação entre a Frequência Cardíaca Máxima (FCmax) e a de Repouso (FCrep) permite monitorar a capacidade aeróbia de forma contínua usando apenas os dados dos frequencímetros e GPS que os jogadores já utilizam diariamente. Lembrando que a FC de repouso “verdadeira” é fundamental. Também pode ser calculado usando a FCmax de um simples teste ergométrico. Contudo, a FC repouso precisa ser a verdadeira. Não vale aquela pré-teste ante de iniciar o exame que já tem o efeito simpático sobre a FC.
2. A Precisão da Constante de Uth
O método utiliza a lógica de que a captação máxima de oxigênio é proporcional à reserva cronotrópica. A aplicação da fórmula:
FCmax/FCrep x 15,8 = VO2max
Demonstrar que essa constante de 15,8 é válida especificamente para jogadores profissionais — que possuem corações altamente treinados e FCrep geralmente muito baixas — traz uma segurança estatística enorme para os preparadores físicos.
3. Vantagem Competitiva e Preservação
Em um calendário de futebol saturado, realizar testes máximos exaustivos (como o Yo-Yo Test ou testes de esteira) pode aumentar o risco de lesão. Com a validação desse método:
Individualização: O ajuste de carga de treino torna-se quase em tempo real.
Menor Fadiga: Consegue-se o dado de performance sem a necessidade de levar o atleta à exaustão física extrema apenas para fins de teste. Com este método o VO2max estimado pode ser verificado todos os dias. O preparador físico poderá usar a tabela de Tanaka da FCmax para idade e a FC rep (verdadeira).
O Futuro do Monitoramento
Essa publicação abre portas para que clubes com menos recursos tecnológicos também consigam um monitoramento de elite, democratizando o acesso à ciência de alto rendimento. É a tradução pura da teoria para a prática do gramado. Determinar a verdadeira FC de repouso após 5 min deitados e depois mais 5 min sentado é fundamental e determinante que associado a FCmax pode-se calcular com no máximo um erro de 4% o VO2max dos atletas de futebol. Este foi um estudo que demorou 2 anos.

Fonte e texto: SILVA / Dr. Paulo Roberto Santos – DSc, (PhD FMUSP) – CENTRO DE EXCELÊNCIA MÉDICA DA FIFA.